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A lógica dos grandes impérios

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.09.09

 

Ontem acabei o serão a rever o JFK do Oliver Stone já nem sei em que canal, talvez fosse no Hollywood (não, afinal foi no TVCine 2).

Estranho... raramente esqueço as cenas de um filme, mas só me apercebi que já o tinha visto no diálogo entre o Procurador Jim Garrisom (Kevin Costner) e X, um alto dirigente reformado dos serviços especiais (Donald Sutherland), num parque deserto. Esta foi a cena que tinha registado sem me lembrar a que filme pertencia. Agora já sei.

 

O filme está construído quase em estilo de documentário. Oliver Stone é exímio nisso. Mesmo os actores mais conhecidos (e aqui entra um grupo bem simpático, que já tinha coincidido noutros filmes), entram nos papéis de gente comum (bem, aqui gente muito pouco comum) de uma forma natural.

O filme desmonta as mentiras governamentais, a ficção nacional fabricada para consumo de massas. E ao mais alto nível, para esconder uma conspiração: o assassinato de um Presidente e as suas reais motivações. Oliver Stone também é exímio nisso.

O filme termina em tom quase poético e idealista: um simples Procurador na demanda da verdade. Esta cena no Tribunal, em que aliás o réu é ilibado, lembrou-me de imediato o Mr. Smith Goes to Washington. É quase impossível não vermos as semelhanças entre este Procurador idealista, teimoso e corajoso, e uma das personagens mais enternecedoras (pelo menos para mim) do cinema dos anos 30!

O filme também revela o paralelismo império americano-império romano. E desmonta a lógica dos grandes impérios, como se constroem e como se mantêm. Destruindo todos os que ousam pôr em risco o seu enorme, imenso poder.

Tal como na Roma antiga, em que os imperadores podem ser eliminados, também na nação americana isso acontece com a maior das naturalidades.

O sistema protegeu-se de tal forma que tudo é possível: matar e limpar as provas, destruir e culpar terceiros.  (1)

 

Na lógica dos impérios há o poder e as massas populares. Há a grande mentira consumida como verdade. Há os grandes interesses económicos e a carne para canhão (neste caso, as indústria do armamento e do petróleo, poderosíssimas, e os soldados americanos mortos e estropiados no Vietname).

 

Este paralelismo império americano-império romano é interessantíssimo. Tinha-o visto, pela primeira vez referido, pelo Gore Vidal, numa excelente série de documentários intitulada, salvo erro, O Império Americano. Terá passado na televisão nos anos 90, nesses anos de documentários magníficos...bem, já falei nisso aqui...

Gore Vidal é, ele mesmo, um patrício romano, até vive na Itália (ou vivia, pelo menos, à data do documentário)... Aristocrata até à medula, elegância descontraída. (Envelheceu bem, a meu ver. Vi-o, alguns anos mais tarde, no Gattaca.)

De forma um pouco teatral, de um comunicador nato, vai-nos revelando as semelhanças entre os dois impérios: no assassinato a sangue frio do imperador pelos seus mais próximos e nas suas fases: da expansão, da manutenção do poder a qualquer custo e, por fim, do declínio.  (2)

 

 

 

(1)  Isto é possível porque há sempre imensa gente a gravitar à volta do poder, ávida de uma fatia ou de uma migalha: os conformistas facilmente escravizáveis e os ingénuos que engolem as ficções mais ou menos patrióticas. Reparem nas personagens repelentes que surgem nos interrogatórios, dispostos a tudo, sem revelar qualquer vestígio de culpabilidade. A maioria nem questiona as ordens.

(2)  Vale a pena rever esta série de documentários sobre a América, do Gore Vidal. Gravei-os em cassete, o que me impede de os rever. Mas talvez ainda os consiga encontrar em DVD.

 

 

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publicado às 12:09


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